Imaginando as Galápagos: o artista no sistema da natureza

 

o mundo inteiro + a obra = o mundo inteiro Martin Creed, Opus n.o 232 (2000)

As Ilhas Galápagos são conhecidas como um laboratório do mundo natural: um mostruário de como espécies de plantas e de animais se fixam no meio ambiente, se adaptam a ele e nele coexistem num sistema integrado. O estatuto icónico das Galápagos deve-se, em parte, ao papel inspirador que exerceu em Darwin para a sua teoria da evolução. Esta reputação é atestada pela imensa biodiversidade intocada em grande parte das Ilhas, bem como pela transparência de como se tornaram naquilo que são: viajar pelas Galápagos é, literalmente, observar como funciona o mundo natural - a interdependência da geologia, da botânica, da terra e da vida marinha e, mais recentemente, o complexo impacto de uma das espécies mais invasivas, os humanos.


O Programa Residência Artística Gulbenkian nas Galápagos iniciou- -se partindo de duas premissas fundamentais: em primeiro lugar,
os humanos são não só consumidores privilegiados do mundo natural, mas também participantes activos e, portanto, responsáveis; em segundo lugar, a arte é um comportamento humano central, portanto natural. Este ensaio, inspirado no envolvimento que os artistas tiveram com as Galápagos, aprofunda estas duas asserções.


O arquipélago é famoso pela sua construção física - as ilhas emergiram de vulcões no mar e, ao longo de milénios, deslocaram-
-se lentamente por uma falha, ou "banda transportadora" tectónica, através do leito oceânico. As ilhas mais recentes têm cerca de meio milhão de anos, mas incluem vastas extensões de lava arrefecida que parece ter deixado simplesmente de correr (a última erupção mais forte foi na Ilha Fernandina, em 2009), enquanto as mais antigas possuem áreas de uma maturidade igualmente impressionante de forma e de vegetação. Ao longo dos últimos quatro ou cinco milhões de anos,
as formas de vida de plantas e de animais encontraram o seu caminho para as Galápagos vindas do continente sul-americano ou de paragens ainda mais longínquas. Precisavam de estar preparadas para viajar, com alguma sorte serem transportadas pelos ventos ou por correntes apropriadas e, de algum modo, capazes de encontrarem um refúgio no meio ambiente agreste onde pudessem adaptar-se e sobreviver.


Mas as Galápagos são também uma construção mental. Física ou virtualmente, as pessoas levam para as ilhas um conhecimento parcial ou uma imaginação mais ou menos intensa. A transferência começa pelos nomes: as ilhas têm nomes quer ingleses, quer espanhóis que celebram piratas, exploradores, nobres, reis e santos, todos eles
ecos de culturas coloniais e do Equador moderno. As Galápagos são verdadeiramente invulgares, pois não possuem uma cultura autóctone. A partir do século XVI, as Ilhas foram visitadas por exploradores, piratas e baleeiros, sofreram algumas tentativas goradas de povoamento
e de cultivo no século XIX e, gradualmente, ao longo dos últimos cem anos, têm acolhido a pesca, o turismo e a investigação científica. Estas indústrias são desenvolvidas por pessoas que trazem com elas os seus próprios hábitos e pretensões culturais, prosseguindo a necessidade humana, mais ou menos consciente, de conjugar a sua presença no seio de uma sociedade e de um meio ambiente. O aparecimento da cultura assemelha-se a uma versão acelerada do aparecimento de novas espécies animais e vegetais: as novas formas de vida dão à costa ou são sopradas pelo vento. Umas sobrevivem e integram-se, outras, não; todas se transformam em algo especialmente adaptado ao lugar. O vídeo de Jeremy Deller sobre a luta de galos nas Galápagos é pateticamente irónico, pois mostra os seus participantes apegados
a uma versão da "sobrevivência do mais forte", versão essa que lhes
é familiar desde a sua terra natal, no continente.


Apesar de icónica na imaginação do mundo, a identidade cultural
das Galápagos é ainda escassa e pouco profunda. Na opinião de um equatoriano continental que conheci num voo de Miami para Guayaquil, é o Paraíso puro e simples, um destino dourado para o desenvolvimento económico e um orgulho nacional. No seu romance satírico Galapagos (1985), Kurt Vonnegut também descreveu as Ilhas como uma espécie
de paraíso que, acidentalmente, se torna o destino final de um grupo
de turistas naufragados, os últimos progenitores da humanidade, na sua fuga ao fim do mundo. Por sua vez, Herman Melville, que viajou até às Ilhas com os baleeiros, descreveu As Encantadas (As Ilhas Encantadas, 1854) como um local cruel e desolador, a paisagem vulcânica negra denteada povoada por lagartos e caranguejos negros, a única manifestação humana existente nessas histórias de deserção,
traição, perda e desilusão. Também Darwin, embora profundamente influenciado por aquilo que ali viu, escreveu sobre as Galápagos sem qualquer resquício de sentimento ou afeto. Filipa César, uma das artistas do programa de residência, utilizou a moldura de um mundo fictício
para a sua meditação sobre imagens das Galápagos do passado e do presente, reconhecendo, desde o início, que as Ilhas Encantadas são um significante, um recetáculo prestes a ser preenchido por crenças e sonhos. A característica principal das Ilhas é serem, simultaneamente, um espaço de magia e um local da mais crua verdade. A sua magia reside precisamente na revelação de verdades iluminadas por mitologia ou convenção. É uma magia com uma espantosa capacidade de adaptação e que cumpre os seus desígnios: a Scalesia, uma espécie endémica das Galápagos, é uma árvore com dez metros de altura mas que, na realidade, tem a forma de uma margarida ou de um girassol.
É a magia de relações aparentemente absurdas, onde posso observar um falcão-das-galápagos, o principal predador das Ilhas, a debicar
a carcaça de um leão-marinho-bebé, enquanto outros leões-marinhos
e pássaros permanecem impávidos com a sua presença. Numa outra ocasião, é o ambiente surreal de um grupo de pessoas num bar noturno da periferia da cidade principal de Puerto Ayora, bebendo cerveja
e cantando baladas românticas sul-americanas ao som de um vídeo de karaoke, cuja imagem de fundo é um documentário da BBC que mostra um falcão a esventrar uma iguana. Dorothy Cross, na sua primeira visita às Galápagos há quase 20 anos, recordou um lugar onde os animais coexistiam praticamente sem medo. Isto aumentava a irrealidade
do lugar, sendo, contudo, central à sua realidade. No seu regresso
em 2007, apercebeu-se de que a ausência de medo se havia alterado, como consequência das depredações humanas. As citações que Cross e Fiona Shaw, sua companheira de viagem, extraíram de A Tempestade nas suas conversas sobre as Galápagos parecem particularmente ajustadas a este contexto - uma ilha povoada de animais e de espíritos que formam uma ecologia coerente, para não dizer fantástica, na qual tropeça um grupo de humanos naufragados completamente estranhos ao ambiente, mas que tentam impor as suas estruturas de poder. A ilha de Shakespeare é um lugar de magia e de dura realidade que, à força de ser observada por humanos, se transforma igualmente num lugar de artifício.


A construção física "objetiva" e a construção mental "subjetiva"
das Galápagos são, se não uma única e a mesma, pelo menos interdependentes, na medida em que o nosso estatuto como observadores subjetivos e intérpretes é, enquanto uma espécie, a característica crucial da nossa natureza biológica e social. A nossa compreensão do físico depende das molduras conscientes e inconscientes que pomos à sua volta. Não existe uma visão não-cultural das Galápagos - apenas visões mais ou menos informadas e culturalmente diversificadas. Os registos fotográficos de Paulo Catrica dos edifícios  nas Galápagos constituem um testemunho eloquente sobre este assunto: retratos comovedores de estruturas inacabadas que procuram afirmar-se, traindo, não obstante, referências arquitetónicas e pretensões culturais ternamente importadas.


Os humanos utilizaram sempre este laboratório mágico para os seus objetivos mais imediatos: sacam os seus recursos naturais, sejam eles baleias, tartarugas ou pepinos-do-mar, até não existir praticamente
mais nada para sacar; instalam uma base aérea norte-americana estrategicamente situada para vigiar o Pacífico e proteger o Canal do Panamá; proporcionam mesmo um esconderijo à família Angermeyer, fugida da Alemanha nazi no final dos anos 30, e que ali viveu à boa maneira de Robinson Crusoe. Contudo, o funcional e o ficcional sobrepõem-se e alimentam-se mutuamente. Os sonhos têm uma função ao ordenarem a profusão de informações e de emoções nas nossas mentes. Artes visuais, literatura, música e outras formas de representação e interpretação ajudam igualmente a moldar a compreensão(e, consequentemente, o comportamento) em torno das relações sociais complexas. Human Report, o vídeo de Marcus Coates, originalmente feito durante a sua estadia em Santa Cruz, em 2008, e transmitido na televisão das Galápagos, clarificou essa questão ao inverter os papéis, com o artista graciosamente disfarçado de ganso-patola-de-patas-azuis e visitando a população humana numa tentativa de compreender os seus estranhos costumes.


As relações sociais são intrinsecamente tensas, e o paraíso das Galápagos tem assistido a tensões agudas, principalmente entre os habitantes que tentam ganhar a vida indo ao encontro das exigências comerciais internacionais - de peixe ou de turismo - e pessoas dedicadas a preservar a biodiversidade das Ilhas. Com efeito, estes distintos grupos dependem inteiramente um do outro: o comércio
local está dependente para uma sobrevivência, mesmo a médio
prazo, da preservação da integridade e da reputação ecológica
das Ilhas. O trabalho dos cientistas e dos guardas dos parques está reciprocamente dependente do turismo para captar atenção e receitas para as Galápagos. O programa de cinco anos de residência artística revela uma mudança consciente na política da Fundação Charles Darwin (FCD), desde uma concentração exclusiva na investigação científica até ao impulso para a implementação de comunicações complementares e de programas de educação, incluindo iniciativas altamente inovadoras para desenvolver junto dos habitantes competências e capacidades que ajudem a criar uma economia sustentável. Uma avaliação independente da FCD, datada de 2007, concluiu que "a gestão do ecossistema requer uma compreensão integrada das ciências económicas, sociais, culturais e ecológicas. Reconhece a inter-relação dos sistemas ecológicos e sociais e o facto de as decisões deverem basear-se na informação integrada dessas mesmas esferas".


Arte e artistas ficam muitas vezes a perder em tal companhia porque é raro reivindicarem antecipadamente o seu sucesso. O processo artístico - que, recorde-se, o nosso programa propõe como sendo mais intrínseco à natureza do que exterior a ela - é habitualmente indeterminado. Todavia, não deixa de ser ainda extraordinariamente eficaz quando se concentra em temas de profundo interesse tantas vezes negligenciados, fomentando a participação e criando produtos que, enquanto a sua natureza não podia ser imaginada antecipadamente, parece que sempre existiram, uma vez surgidos à luz do dia.


Até à data, os aspetos culturais importados para as Ilhas pelos
seus habitantes recentes e pelos visitantes regulares permanecem
um tanto estranhos e inadaptados, sejam eles artes "indígenas" expedidas de outros países sul-americanos, pinturas murais que enaltecem Darwin e iguanas-marinhas, t-shirts com modelos da moda, ou as omnipresentes fotografias ao bom estilo documental. Porém,
a variedade e a sofisticação destas formas aumentam diariamente. Existe claramente espaço para prosseguir com as iniciativas da FCD nas artes criativas e fomentar a criatividade local, quer como ferramenta comunicativa, quer como uma renovável fonte de rendimento.


Os 12 artistas que participaram no programa de residência foram selecionados mais na base do que cada um poderia trazer à situação em termos da sua obra anterior e do seu interesse pelas Galápagos
do que na promessa de um resultado em particular. Os artistas são sobejamente conhecidos pela sua independência, perfeitamente conscientes e justamente fartos de serem usados como "instrumentos" para as agendas de outras pessoas. Na realidade, os artistas podem ser muito "úteis" quando, na maior parte dos casos, são eles próprios: a operar na interligação entre a consciência individual e a consciência coletiva, capazes de fazerem intervenções no interior de um espaço aberto e recetivo à interpelação humana - a arte -, intervenções essas que podiam ser ignoradas ou rejeitadas se feitas noutros contextos. Porém, todos estes artistas estão profundamente cientes de que as suas ações individuais são influenciadas pelo seu contexto, cultura, psicologia e circunstâncias políticas e económicas.


Muitos dos artistas visitantes ficaram bastante felizes por poderem trabalhar a níveis que cruzavam os reinos da imaginação e da função específica. Alexis Deacon, por exemplo, considerou perfeitamente natural oferecer os seus consumados talentos de desenhador para ajudar com o material de marketing que a FCD produziu durante a sua estadia. Jyll Bradley, em retribuição à abertura demonstrada
pelos cientistas botânicos face ao seu interesse pela investigação
das espécies de plantas endémicas, disponibilizou o seu trabalho fotográfico para publicação em trabalhos dos cientistas e em programas de comunicações. A curta-metragem de Marcus Coates, improvisada pouco tempo depois da sua chegada a Puerto Ayora e transmitida durante a sua estadia, representou não só um forte envolvimento, mas também uma obra de arte serena e reservada. Kaffe Matthews, depois de mergulhar com tubarões-cabeça-de-martelo para explorar as suas ideias sobre rastreamento e sonificação de tubarões, promoveu workshops educativos com jovens na Ilha Isabela que serviram para desmitificar um tema de medo local e falta de conhecimento.

Ruth Jarman e Joe Gerhardt, dos Semiconductor, trabalham regularmente em colaboração com cientistas e articulam muito facilmente diferentes disciplinas científicas (sobretudo geofísica,
como se viu nas Galápagos). A sua área de investigação oferece uma pista para os paralelismos interdisciplinares que este ensaio propôs.
O comportamento dos protões e dos neutrões é normalmente explicado através da física; o das células e dos animais, através da biologia; o dos humanos, através das ciências sociais, como a psicologia,
a sociologia ou a economia. Seguramente, a certo nível, existem uma ligação e um elo comum que não banalizam a integridade da ação humana, nem antropomorfizam outras formas de comportamento consequente. As Galápagos, o laboratório da natureza, mostra-nos como o comportamento humano é uma parte intrínseca da natureza que causa um tão grande impacto. A prática artística pode existir num espectro que vai, digamos, da intuição privada à propaganda declarada - qualquer das vias é uma ferramenta para a compreensão, útil apenas quando engenhosa e criteriosamente usada. A sobrevivência ou a destruição das Galápagos, e do mundo mais vasto do qual as Ilhas são um tão emblemático microcosmos, dependerão de como as ideias cumulativas e as ações dos humanos - como indivíduos, comunidades, nações e grupos de interesse - se podem conjugar de modo a fazer nele o lugar das nossas espécies finalmente sustentável.


Greg Hilty, curador, é atualmente Diretor da Lisson Gallery. Começou a trabalhar nos Estúdios London's Riverside, foi Curador Sénior na Hayward Gallery durante a década de 90, cocurando uma série de importantes exposições coletivas e projetos de iniciação que ligavam a arte visual a outras disciplinas que incluíam filmes, som e moda. Após um período dedicado ao financiamento de artes e estratégia, fundou  a Plus Equals, uma agência de desenvolvimento interdisciplinar em parceria com a University of the Arts, de Londres. Esteve intimamente ligado ao projeto das Galápagos desde a sua criação, chefiou, primeiro, a seleção de artistas e, posteriormente, foi cocurador da exposição.