As questões das Galápagos

Felipe Cruz à conversa com Toni Darton

Felipe Cruz é Diretor de Assistência Técnica na Fundação Charles Darwin para as Ilhas Galápagos. Nascido e criado na Ilha Floreana, será difícil imaginar porta-voz mais apaixonado pelas Galápagos. Aqui, conversa com Toni Darton, ex-Diretor Executivo da Delegação em Londres do Fundo de Conservação das Galápagos (FCG) que, de setembro de 2007 até setembro de 2011, esteve intimamente ligado ao desenvolvimento do Programa Residência Artística Gulbenkian nas Galápagos.

 

TD Graças ao Fundo de Conservação das Galápagos, sabemos muito sobre as Ilhas Galápagos. Porém, seria interessante ouvir alguém que nasceu e foi criado nas Galápagos: o que é que torna as Ilhas
tão especiais?

 

FC Na minha opinião, o que as torna tão especiais é que não existem mais nenhumas Galápagos, e isso inclui também muito da sua vida selvagem. É o berço de espécies que não existem em qualquer outro lugar na Terra, como, por exemplo, as iguanas-marinhas, os cormorões- -das-galápagos e os tentilhões-de-darwin.

 

TD Explique, por favor, o papel da Fundação Charles Darwin (FCD).

FC A FCD é uma organização internacional sem fins lucrativos que faculta informação e assistência, de modo a assegurar a preservação adequada das Galápagos. A FCD opera segundo um acordo com
o Governo do Equador e, ao longo de 50 anos, tem funcionado em estreita colaboração com o Serviço do Parque Nacional das Galápagos, a principal autoridade governamental que protege as reservas naturais das Ilhas, facultando aconselhamento para preservação deste laboratório vivo. A FCD recebe apoio da comunidade internacional através de donativos, sejam eles provenientes de instituições privadas ou de outras fundações.

 

TD Por um lado, a flora, a fauna e as paisagens únicas fazem das Galápagos um destino aliciante para cientistas, naturalistas e viajantes, e são estas pessoas que podem ajudar a proteger e a salvar as Ilhas. Por outro lado, tudo o que reduz o isolamento das Ilhas ameaça os seus frágeis ecossistemas. Podemos falar sobre a questão das espécies invasivas? Por exemplo, o número de plantas introduzidas excede já em quase o dobro o número das espécies nativas, não é verdade?

 

FC Tem toda a razão. As espécies invasivas constituem uma grande ameaça para a natureza das Galápagos. Por exemplo, tivemos problemas com caprinos que foram trazidos pelos baleeiros e pelos piratas para sustento. Ao longo dos anos, o seu número aumentou ao ponto de terem dizimado a vegetação de que espécies como a tartaruga-gigante-das-galápagos necessitam para alimento e
abrigo. Era importante erradicar os caprinos, pois existem em enorme quantidade noutras regiões, ao passo que as tartarugas-das-galápagos só existem aqui. As Galápagos estão agora apostadas em se tornarem o primeiro arquipélago sem caprinos - o programa de erradicação insular com melhores resultados no mundo. Não é só a introdução de fauna que causa problemas nas Ilhas. A silva está disseminada pelas Galápagos, sendo uma das suas pragas mais graves. Pelo facto de cobrir vastasáreas, é extremamente difícil remover definitivamente esta planta. Apesar de estar em curso uma pesquisa para encontrar um controlo biológico, estão, entretanto, a desenvolver-se esforços para reduzir o seu impacto na flora nativa.

 

TD No passado, houve quem sugerisse que o Governo equatoriano não devia permitir que alguém vivesse nas Galápagos, e os que ali vivem deveriam ser deslocados para o continente. Tenho a certeza que tem algo a dizer sobre isto!

 

FC Claro que tenho! Sendo alguém que nasceu nas Ilhas, considero esta a ideia mais afrontosa que alguma vez ouvi propor! A realidade
é que as pessoas vivem nas Galápagos. E por essa razão é que se torna importante envolver a população local em esforços que estão
a ser feitos para assegurar a sustentabilidade futura das Ilhas e para dotar os habitantes de um excelente sistema educativo de modo a que, quando as crianças atingirem a idade de trabalhar, tenham já as competências para assumirem lugares-chave que, no passado, foi necessário confiar a entidades nacionais ou internacionais. Agrada-me ver, no futuro, a "exportação de cérebros", encorajando assim mais a emigração do que a imigração a longo prazo, bem como educar as pessoas, conferindo-lhes as competências de que as Ilhas necessitam para se tornarem autossuficientes.

 

TD O que é que o levou a interessar-se pela proposta do programa de residência artística?

 

FC Interessei-me porque a minha função como Diretor de Assistência Técnica tem sido promover o programa educativo e as parcerias com os locais, melhor dizendo, os projetos científicos não-naturalistas.
Eu próprio fui cientista, por isso sei que, por vezes, pode existir um grande fosso entre um especialista, digamos, entre o perito mundial em salvar a pardela-das-galápagos - algo que pessoalmente, na década de 1980, ajudei a conseguir - e os habitantes locais, cujas ações em muito podiam contribuir para a sobrevivência das espécies se compreendessem a situação e o contexto. Vi que o programa

de residência artística poderia ser uma via deveras interessante
para mostrar a comunidade das Galápagos à comunidade artística internacional e partilharem experiências, e, ao fazê-lo, aprenderiam mutuamente. A capacidade de construir é uma parte crucial do papel da FCD, e as artes são uma maneira eficaz de ajudar a concretizá-lo.

 

TD De que forma é que as comunidades locais têm sido envolvidas?

 

FC Muito do meu trabalho de equipa consiste em lidar com jovens
das quatro ilhas habitadas, quer através da educação formal, quer
da informal. O currículo escolar no Equador é muito estruturado e, no decurso deste projeto, temos trabalhado com as escolas locais e com o Ministério da Educação, de forma a introduzir o ambiente no currículo escolar e apresentar novos projetos criativos para encorajar os jovens naturais das Galápagos a melhor entenderem e apreciarem as suas Ilhas. O trabalho que alguns artistas fizeram veio complementar esta ação de uma forma maravilhosa. A estadia de Marcus Coates em Puerto Ayora é um ótimo exemplo. Ao imitar um ganso-patola-de-patas azuis
a estudar a espécie humana, não só conseguiu muita publicidade na imprensa local e na televisão, como também implementou discussões entre pessoas de todas as idades sobre o nosso lugar nas Ilhas e as formas de aqui vivermos, lado a lado com outras espécies.

 

TD Como definiria o impacto que o programa de residência artística teve, particularmente, na FCD?

 

FC Testemunhei o impacto positivo que o programa teve em
alguns cientistas. Se é investigador especializado, por exemplo, em entomologia e dedica a sua vida a estudar insetos, é um prazer descobrir que uma artista do Reino Unido não só partilha consigo o fascínio pelas mariposas, como também consegue pintá-las maravilhosamente.
Como se isso não bastasse, chegou mesmo a apanhar uma nova espécie no seu quarto, abrindo posteriormente as portas a uma coleção rara, propriedade de um monge de Quito, e estabeleceu ligações com
o Museu de História Natural, em Londres! Alison Turnbull fez tudo isto interligando subitamente o trabalho do investigador com todo um mundo exterior. Kaffe Matthews nadou sem receio com tubarões, e o seu desejo de recolher aspetos do modo de viver dos tubarões através do som e o seu respeito por eles enquanto criaturas vivas repercutiu-se em muitas pessoas que, normalmente, consideravam os tubarões um perigo; isto agradou realmente aos cientistas de tubarões que partilharam com ela
o seu enorme interesse por estas espécies ameaçadas.

 

Mais perto de nós, algumas das conversas e dos whorkshops que os artistas promoveram durante as suas residências serviram para juntar pessoas de todos os níveis e áreas da Fundação. E dois membros do nosso conselho envolveram-se de igual maneira: Randal Keynes fez parte do painel de seleção no Reino Unido e tem agora uma melhor perspetiva global, com um especial interesse pela influência educativa; e o vulcanólogo Dr. Dennis Geist trabalhou entusiasticamente com os Semiconductor antes e durante a visita deles.

 

TD Eu diria que um dos aspetos genuinamente marcantes deste programa foi a maneira como os artistas viveram as Galápagos, com uma mente aberta e sem quaisquer limitações. Reagiram àquilo que
lhes interessava mas, além de efetuarem as suas próprias investigações, envolveram-se em tudo, desde ciência até ao culto da religião local, como foi o caso de Jeremy Deller; ou ajudaram a planear e a ilustrar uma campanha a favor do uso da bicicleta, como fez Alexis Deacon; ou Jyll Bradley, que trabalhou com os habitantes locais, incentivando- -os a cultivarem nos seus jardins plantas da região em vez de plantas ornamentais invasivas. Que impacto mais abrangente acha que o programa teve para as Galápagos?

 

FC Os habitantes das Galápagos interagem pouco com artistas de outras partes do mundo. Espero que eles tenham agora outras formas de olharem para a arte e compreenderem que ela abrange um vasto leque de interesses e atividades. Pode até inspirá-los a tornarem-se mais criativos. Espero que alguns dos contactos e relações com os artistas se mantenham, mas desejo também que o trabalho regresse às Ilhas sob qualquer outra forma para que, graças a este programa, permaneça um legado artístico. Desde o início que todos estávamos cientes de que os artistas não só receberiam, como também dariam algo em troca. Espero que seja esse o caso.


TD Que espera das repercussões, a longo prazo, deste programa no Reino Unido?

 

FC Espero que ajude as pessoas a perceberem a fragilidade das Ilhas e o exercício de equilíbrio que existe entre o homem e a vida selvagem. Espero que aprendam que há pessoas a viver nas Galápagos (uma surpresa para muitos), que isso faça com que se descubram novas e empolgantes maneiras de contar histórias importantes e de partilhar
as maravilhas das Galápagos sem fazer crescer o número de visitantes. Espero que este projeto ajude a mostrar que as Ilhas conseguem ser um modelo para o mundo. Elas são um dos poucos lugares no mundo ainda 95% primitivos e que podem ser salvos. Apesar de nós, humanos, termos estado na origem de muitos dos problemas que as Galápagos enfrentam - acidentalmente, em grande parte dos casos -, as Ilhas são também um sinal de esperança. É isso que as torna tão excitantes. É essa a mensagem que a FCD promove sempre que possível.

 

TD Não deixa de ser ambicioso, mas espero que concretize tudo isso
e mais! Um dos principais objetivos da FCD é a sensibilização para
as necessidades de preservação das Galápagos, para aquilo que
as Ilhas podem ensinar ao mundo e por que razão as Galápagos são importantes. Precisamos também de alicerçar de forma mais abrangente uma maior compreensão e discussão sobre a preservação, algo que o nosso Clube da Tartaruga para jovens faz bem. Graças a este programa, não só contamos entre os artistas 12 embaixadores que chegam a públicos que nunca esperaríamos poder atingir, mas conseguimos já uma muito mais vasta divulgação através desta colaboração, quer com a Fundação Calouste Gulbenkian, quer com o Museu de História Natural. A minha verdadeira esperança é que, no decurso de 2012,
se possam realizar discussões acaloradas sobre temas, desafios, mensagens e maravilhas das Galápagos em todo o lado, de espaços de galerias à imprensa nacional, a filas de espera dos autocarros, a escolas em Liverpool, Edimburgo, Lisboa e por aí fora. E, naturalmente, faço votos para que as reflexões dos artistas sobre as Ilhas possam ser apresentadas aos seus anfitriões.

 

O arquipélago das Galápagos não é o único lugar no Equador que pode alardear a sua incrível biodiversidade - o país tem uma variedade que vai da floresta tropical e planícies costeiras até montanhas e vulcões. Qual é o plano nacional para a preservação destas áreas e onde é que as Galápagos se inserem?

 

FC Tem toda a razão. Sinto enorme orgulho no Equador, pois é um país belíssimo e o único no mundo que alterou a sua Constituição de modo a assegurar à natureza o direito de "existir, persistir, manter e regenerar os seus ciclos vitais, estrutura, funções e processos na evolução". Isso demonstra quão seriamente este Governo leva a sua ação de proteção a estes recursos naturais. Para os visitantes, as Galápagos têm sido sempre a atração principal, mas existe agora um grande esforço para que eles conheçam outros tesouros naturais e culturais.

 

TD Quais os seus principais receios e esperanças para as Galápagos durante os próximos 20 anos?

 

FC A minha esperança é que, finalmente, possamos vencer alguns dos desafios que levaram a UNESCO a classificar, em 2007, as Galápagos como Património Mundial em Perigo, desafios que se prendem
com espécies invasivas, desenvolvimento desregrado, controlo de imigração, incremento da educação e do turismo. O Governo está
já a tratar de todas estas questões, e sei que a FCD e o FCG estão envolvidos numa série de projetos para enfrentarem igualmente esses desafios. Um dos meus sonhos sempre foi restabelecer alguma da vida selvagem na Ilha Floreana, a minha terra natal. O apoio do FCG ao ambicioso Projeto Floreana, um projeto para recuperar toda uma ilha povoada de seres humanos nas Galápagos, começou a ser uma realidade. Mas seria maravilhoso que, daqui a 20 anos, tivéssemos conseguido um equilíbrio em todas as ilhas desabitadas e que as Galápagos fossem o exemplo excelente de como o impacto humano na natureza pode ser invertido de modo a que humanos e vida selvagem possam viver em harmonia.

 

TD E se, como resultado, tivessem sido salvas as mais de 40 espécies das Galápagos que correm grande perigo. Na verdade, isso seria motivo de celebração e, como parte dessa história de sucesso, podermos
ver as galerias de todo o mundo ostentando o trabalho desenvolvido
a partir deste programa.